quinta-feira, 10 de março de 2011

Da inveja e do amor



Maria, minha prima, é dona de um corpo moreno exuberante desde a adolescência, mas tenho que confessar que o tempo só a favoreceu. Lembro-me de um dia que fiquei espiando seu banho em cima de uma árvore e o galho onde eu estava quebrou. Quebrei uma perna, mas ganhei muitos cuidados e carinho dela. Melhor remédio não poderia existir!

Fomos muito próximas na infância, porém toda nossa intimidade se esfarelou quando ela ganhou seios primeiro do que eu. Como suas pernas eram grossas! Até hoje meus seios são pequenos. Nunca me conformei. Além disso, todos os nossos parentes gostavam mais dela do que de mim. Eu era rica, todos deveriam gostar de mim, pensava. A verdade é que ela, além de bonita, era dona de uma simpatia que contagiava, menos a mim, que sou fria como uma pedra de gelo.

Não demorou muito e Maria arranjou um namoradinho com 13 anos. Até hoje nunca namorei e tenho 35 anos. Se assustou, né? Porém esse caso terminou rápido, tratei de acabar com ele com uma surra que dei em João que, com medo, terminou mudando de bairro. Morria de raiva toda vez que Maria anunciava estar namorando.

Lembrei-me agora de uma vez que brigamos. Eu não aceitava seu namoro com Pedro, um menino com os olhos tão azuis como as águas de um oceano. Todo aquele grude me irritava. Paguei uma boa quantia e ele trocou de cidade. Queria ver Maria longe de qualquer homem.

Com toda a minha frieza e estupidez consegui que todos criassem raiva de mim. Ninguém sabia dos meus motivos, ninguém conseguia me compreender. Virei a ovelha negra da família. Quando ia, forçada, aos almoços de família, minha presença era um incomodo a todo mundo. Ouvi da boca de minha mãe que o ar pesava quando eu chegava. Na época, nada disso mexia comigo, porem, hoje, sinto que minha vida teria sido melhor se eu não tivesse bancado a rebelde.

No entanto, nada pode ser mudado. Tudo que estou contando faz parte do passado. Não posso alterar nenhuma vírgula, mas me arrependo de não ter sido feliz. Fui uma covarde e hoje, agora, estou no velório do grande amor da minha vida, Maria. Se ao menos ela tivesse demonstrado que eu teria chance algum dia, mas como isso podia acontecer se fui sempre detestável com ela? Não tive coragem de assumir meu amor por Maria, talvez não adiantasse muito fazer isso.

Não sei o que vou fazer da minha existência a partir de agora sem Maria. Há poucas horas ela estará debaixo da terra e eu estarei vazia, sem motivo para viver. Como gostaria de está naquele caixão no lugar dela. Assim, o mundo estaria livre de um ser tão miserável como eu. Sinto-me culpada por não a ter protegido daquele homem que acabou tirando a vida dela. Aqueles dois tiros não mataram só Maria.

* Texto ficcional

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