quarta-feira, 13 de abril de 2011

Dos caminhos que podemos voltar ou não


Em seu aniversário de trinta anos ela sentia uma angustia enorme. Achava que não tinha aproveitado nada de sua vida. A infância, que dizem ser a melhor fase na vida de qualquer pessoa, foi passada em um colégio interno. Na adolescência, a fase das incertezas, seu futuro já tinha sido traçado por seus pais: devia estudar Direito. Ela não fez nada que os jovens costumam fazer: não bebeu, nunca usou nenhuma droga ilícita, transava muito raramente, nunca matou aula, nunca seus pais foram chamados na escola. O peso de chegar aos trinta anos e sentir que nada foi feito lhe provocou uma das piores sensações que um ser humano pode sentir: a de sua vida não está sendo aproveitada.
Por isso, no dia de seu aniversário não teve nenhuma festa, ela preferiu caminhar pelas ruas da cidade para pensar sobre sua vida e descobrir qual caminho seguir a partir daquela data. Algo deveria ser mudado em sua vida, isso ela tinha certeza, e decidiu fazer acontecer.
Uma mulher bonita e que aparentava fragilidade logo despertou o interesse de Allan, um malandro que sempre andava atrás de uma mulher carente para lhe aplicar um golpe. Ele não perdeu tempo, sentou ao seu lado e puxou conversa:
           Boa noite, o que uma mulher fina como você está fazendo sozinha nessa noite fria?
           Não sei o que eu estou fazendo, nem o que devo fazer.
Passaram ali mais de uma hora, ela filosofando sobre a vida e ele tentando se mostrar inteligente e buscando a confiança daquela mulher.
Allan conseguiu levá-la para uma boate que tocava músicas dos anos 80, ela é fã dessa época, chegou a fazer uma pesquisa profunda da década perdida para escrever uma peça de teatro. Sim, quando se cansava do Direito, ela procurava fazer atividades artísticas.

Highway to the danger zone 
I'll take you
Right into the danger zone

Caminho para a zona de perigo
Eu levarei você
diretamente até a zona de perigo

Dizia a letra da música.
Ela estava encantada com a sensibilidade daquele homem. Ele conseguia entendê-la perfeitamente, achava.
Depois da boate foram até um motel, Clarisse, como ela se chamava, nunca tinha traído o marido, mas também nunca tivera um orgasmo com ele, e aquele homem a atraia fortemente, não só por sua beleza, mas por ele entendê-la. Acho que isso é que as pessoas buscam hoje em dia, alguém que as compreendam.
Tiveram uma grande noite de amor. Ele jurou amor eterno. Ela já planejava sua separação.
E assim o foi. O casamento de 5 anos acabou, de repente, por causa de Allan.
O sonho durou um ano, o tempo que Allan precisou para conseguir roubar todos os bens de Clarisse. Três dias depois ela se matou com um tiro na nuca.

*Texto ficcional

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