quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Das noites no centro



Aquela bela loira sempre andava pelas ruas decaídas do centro da cidade, onde prédios deteriorados fazem parte da paisagem e servem de abrigo para moradores de rua e malandros. Diria até ser um pecado das entidades divinas fazer com que tamanha beleza convivesse com esses tipos sociais.
Numa noite de caça como qualquer outra, Armando, já um pouco alcoolizado, decide levantar-se daquela mesa de bar e caminhar um pouco antes de ir embora. Estava certo que não conseguiria levar nenhuma mulher até a sua cama.
Armando adorava o sabor da conquista. Não gosta de mulheres fáceis, que dizem sim para qualquer um só para parecer livre e moderna. Aquele homem, na casa dos 35 anos, sente-se poderoso, como nenhum outro, quando as envolve em sua teia de charme e sensualidade.
Lá vem Ela, atraindo olhares de todos a sua volta. E não seria diferente com Armando. Seus olhos brilharam quando enxergaram a rara beleza daquela mulher. Logo se levantou e ofereceu um cigarro. Ele não teve receio de abordar-la, mesmo vendo que Ela estava parada na esquina como se estivesse esperando alguém.
                ― Fuma?
― Acha que uma mulher da noite não fuma?
― O que você quis dizer com mulher da noite? ― disse, já disparando seu olhar envolvente que lhe é característico.
― Achei que fosse inteligente!
― E como imaginou que eu seria inteligente?
― Intuição... Faro...
Armando ascende seu cigarro.
― Já percebeu que até agora você só me fez perguntas? Por um acaso é repórter?
― A única coisa, neste momento, que queria reportar aos outros é a sua beleza ― disse, dando um leve sorriso.
― Que cantada horrível! Achei que, com sua inteligência, me faria umas bem melhores.
Armando se aproxima ainda mais.
                ―Tem razão. Você merecia uma melhor. Mas, já percebeu que você tem o poder de deixar os homens burros quando estão perto de seu magnífico corpo?
                ― Tu é um babaca! ― disse, já sem paciência. Mas a verdade é que Ela estava se sentindo atraída por ele.
                ―Imagina eu chupando seu pescoço e dando leves mordidas em sua nuca. Despimo-nos um ao outro e, em seguida, deslizo uma de minhas mãos até sua região genital. Estimulo seu clitóris. Pronto. Você estará desarmada e, então, forço meu pênis em sua vagina ― Armando interrompe sua narrativa erótica ― Está imaginando?
Ambos riem.
                ―Olha, vou te deixar meu cartão. Ligue-me durante a semana. Sexta, sábado e domingo são corridos.
                ―Não estou conseguindo te entender!
                ―Eu sou garota de programa. Mesmo que estivesse afim de você, não poderia deixar de cobrar. Sexo, para mim, é apenas um trabalho ― Ela não gostava de vender seu corpo. Então, por isso, não transava nem por afeto, nem por diversão. Sexo significava, para ela, prostituição e, por causa disso, tinha nojo de fazer nas horas vagas ― Foi um prazer, Amanda.
Ela foi embora.
Armando ficou pensando: “não pago para ter sexo”. Já era tarde demais. Ele estava apaixonado por aquela mulher. Depois de dois dias, ele liga e marca um encontro, ou melhor, um programa. Foi a melhor transa de sua vida.
Ao acordar, Armando a procura, porem Ela já havia ido embora, sem levar o cachê. Então, ele vai lavar o rosto e encontra, feito com batom, a frase no espelho: “Tenha uma boa vida com Aids”.
Desesperado, após dois meses, Armando fez o exame. Deu negativo. Logo conclui que Ela tinha inventado aquilo para que ele nunca mais a procurasse. Foi em vão. Logo que soube do resultado, Armando voltou àquela parte do centro. No entanto, não a encontrou. Amanda nunca mais foi vista naquelas ruas.

* Texto ficcional

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